Quem controla os meios de criar controla quem pode imaginar
Existe uma violência que quase ninguém percebe.
Ela não deixa hematomas.
Não aparece nos jornais.
Não produz sirenes.
Ela acontece quando uma criança desenha uma casa roxa e alguém pergunta por que o telhado não é vermelho.
Quando canta alto e mandam fazer silêncio.
Quando dança e dizem que está passando vergonha.
Quando escreve um poema e perguntam se aquilo "dá dinheiro".
Quando escolhe um caminho diferente e ouve que precisa "virar gente".
Pouco a pouco aprendemos que criar é perigoso.
Que criar precisa dar resultado.
Que criar precisa ser bonito.
Que criar precisa ser útil.
E, quando não atende nenhuma dessas exigências, deixa de ser criação e vira perda de tempo.
Vivemos numa sociedade que diz valorizar a criatividade.
Mas só depois que ela pode ser vendida.
Só depois que ganha moldura.
Só depois que recebe um diploma.
Só depois que alguém autoriza chamá-la de arte.
Todo o resto vira hobby.
Ou infantilidade.
Ou falta do que fazer.
A Maracutaia nasceu da recusa dessa lógica.
Porque a pergunta nunca foi "quem é artista?"
A pergunta é:
quem foi impedido de continuar sendo?
Não acreditamos que existam artistas e não artistas.
Acreditamos que existam pessoas que tiveram acesso.
E pessoas às quais esse acesso foi negado.
Negaram materiais.
Negaram tempo.
Negaram espaços.
Negaram o direito de errar.
Negaram até o direito de desafinar.
Foi assim que inventaram uma divisão conveniente.
Alguns produzem cultura.
Os outros apenas a consomem.
A gente não compra essa ideia.
Por isso existem as Sextas Básicas.
Não para ensinar arte.
Mas para devolver às mãos a confiança de fazer alguma coisa sem pedir licença.
Por isso existe o Karaokê de Quinta.
Porque cantar nunca foi sobre alcançar a nota certa.
É sobre ocupar um microfone sem precisar merecê-lo.
Por isso existe o Blog da Maracutaia.
Porque escrever não deveria depender da aprovação de editoras, algoritmos ou especialistas.
Toda pessoa tem alguma coisa que atravessou a vida e merece virar palavra.
Por isso existe o Vira Disco.
Porque colocar uma música para tocar também é uma forma de escrever.
Só que, em vez de frases, usamos frequências.
Em vez de vírgulas, silêncios.
Em vez de parágrafos, discos.
Talvez pareçam projetos diferentes.
Mas nenhum deles fala realmente sobre pintura.
Ou música.
Ou literatura.
Ou discotecagem.
Todos falam sobre a mesma coisa.
Redistribuição dos meios de criação.
Porque quem controla os meios de criar controla também quem pode imaginar o mundo.
E uma sociedade que desaprende a imaginar é uma sociedade que aceita qualquer realidade como inevitável.
A Maracutaia existe para produzir pequenas rupturas.
Uma mesa cheia de tintas.
Um microfone aberto.
Uma parede disponível.
Uma vitrola ligada.
Um texto publicado.
Pode parecer pouco.
Mas toda revolução começa quando alguém percebe que também pode criar.
Todo ser humano já nasce artista.
O resto é um longo processo de convencimento para que esqueça o que se é.
A Maracutaia só tenta interromper esse processo.
Nem que seja por algumas horas.
Porque talvez o mundo precise não de menos consumidores de cultura.
mas de mais gente lembrando que também pode produzi-la.
Perdeu os rolês?
Fica triste não, esse final de semana tem mais!
Confira a nossa agenda abaixo e as últimas fotos do último rolê.
Sexta- Feira, 24 de Julho, à partir das 20h - Entrada 1 Alimento não perecível ou R$5
SEXTA- BÁSICA VOL. 36 | Imã de Geladeira com Massa de EVA
Sábado, 25 de Julho, à partir das 20h - Entrada: de $15 a $35
BAILE DO CATUABA VOL. 4 - O verdadeiro baile latino
Com DJ Fernando Vinhota e DJ Ana Colombiana