A expressão popular sempre contou com o escracho para existir, de um fidalgo de boca suja às esquetes religiosas do Porta dos Fundos. O deboche, o uso motivado do Kitsch, existe na intenção do artista. O cult brasileiro é escrachado. É importante lembrar que todos esses artistas mais “famosinhos” de hoje vieram, em certa medida, da chanchada, sendo ela pornográfica ou não. Desde Regina Casé, que saiu de Os Sete Gatinhos, bradando “EU TENHO NOJO DE HOMEM”, para interpretar Val em Que Horas Ela Volta?, até Vera Fischer, que era clubber, em Superfêmea. Na modernidade, a chanchada também foi objeto de crítica e releituras.
Cilada.com, por exemplo, foi lido pela crítica como “a volta da pornochanchada” às telas brasileiras. A querida Fernanda Torres tem uma leitura interessante sobre o gênero ao afirmar que “a classe média é motivo de riso e perversão por aqui”, uma classe que vivia do consumo e que hoje vê sua capacidade de compra reduzida por um capitalismo tardio. Sendo atualmente a classe média o maior grupo econômico do país, mas sem poder de compra e com grande dificuldade de mobilidade social, sobra-lhe somente a opinião. É daí que surge o vira-lata pseudoestudado que diz que “não se faz cultura no Brasil”. O escracho é cult por aqui; não cabe falar de Kubrick no país de Grande Otelo e Fernanda Torres. Nada é mais cult do que um filme que versa sobre a falta de saneamento básico nas cidades do Brasil enquanto faz metalinguagem com uma comédia pueril.
Quem assiste ri, enxerga-se na arte e, ainda assim, consegue desligar o televisor e pensar: “Caralho, isso poderia acontecer na minha cidade”. Política, escracho e senso de humor se encontram na cinematografia brasileira o tempo todo. São poucos os filmes nacionais que não provocam um resfolegar, aquele arzinho que sai do nariz quando algo não é engraçado o suficiente para arrancar uma gargalhada, mas ainda conserva uma potência cômica. A genialidade está em fazer rir aquele que chora. E, saudando minha querida professora de Arte do Ensino Médio, Naiara Dias: “Não se deve desafinar o coro dos contentes, mas sim afirmar o coro dos descontentes”.
É daí que nasce a genialidade de quem faz piada com a realidade, seja a partir de um gato de duas cabeças e uma perna que sai pulando e chutando os outros por aí, seja na sátira da MALDITA CLASSE MÉDIA (Chauí, 2013).
Dionísio Guedes
Consumidor de vinhos baratos, fã de botecos e batuqueiro de ocasião.