Quando a pista também é um encontro
"Não me pergunte quem sou e não me diga para permanecer o mesmo." Michel Foucault
Existem lugares que não servem apenas para dançar.
Servem para experimentar quem a gente pode ser.
A gente passa boa parte da vida sustentando versões de si. No trabalho, existe um jeito de falar. Em casa, um jeito de agir. Nas redes sociais, um jeito de aparecer. Como se o mundo inteiro esperasse que fôssemos coerentes o tempo todo.
Mas existem espaços onde essa obrigação simplesmente perde a força.
Talvez seja por isso que algumas festas permaneçam na memória muito depois da última música.
Não é apenas sobre dançar.
É sobre encontrar um lugar onde o corpo pode descansar das performances que aprendeu a sustentar.
A Maracutaia me parece ser um desses lugares.
Não porque as pessoas chegam sabendo exatamente quem são. Mas porque, por algumas horas, ninguém precisa decidir isso.
Uma conversa no terraço.
Uma arte produzida.
Um abraço inesperado.
Uma música que atravessa.
Uma roupa que você nunca teria coragem de usar em outro lugar.
Um desconhecido que vira companhia de pista.
Tudo isso também nos transforma.
A esquizoanálise parte justamente dessa ideia: nós não somos uma identidade pronta esperando para ser descoberta. Somos feitos dos encontros que nos atravessam. Das relações que construímos. Dos afetos que nos movem. Dos lugares onde nosso corpo encontra espaço para respirar.
Talvez por isso ela fale tanto de desejo.
Não do desejo entendido como falta, mas como potência.
Desejo é aquilo que faz a vida aumentar.
É aquilo que nos coloca em movimento.
É aquilo que produz novos modos de existir.
E talvez uma pista de dança faça exatamente isso.
Ali, ninguém pergunta quem você é antes de dançar com você.
Ninguém exige um currículo para dividir um sorriso.
Ninguém pede que você permaneça o mesmo.
Durante algumas horas, o corpo lembra que também sabe pensar. Que também sabe escolher. Que também sabe inventar novas formas de existir.
É por isso que gosto de pensar que alguns lugares produzem mais do que festas.
Produzem encontros.
E encontro, na esquizoanálise, nunca é uma coisa pequena.
É no encontro que a gente muda sem perceber.
É no encontro que descobrimos que talvez nunca tenha existido uma única versão de nós mesmos.
Talvez existam muitas.
E talvez a liberdade esteja justamente em permitir que elas dancem.
Talitha Kishimoto - Psicóloga clínica com abordagem em esquizoanálise
Para saber mais, siga Talitha no instagram: @tathakishi