AGROCHOQUE!
Na última semana, Ribeirão Preto parou.
Árvores caídas interromperam avenidas. Casas foram destelhadas (inclusive a nossa). Bairros ficaram sem energia. Em poucas horas, a cidade percebeu o quanto é frágil diante da força do clima.
A gente insiste em tratar como acidente aquilo que vem sendo construído há décadas.
O céu não caiu de repente.
Ele vem sendo empurrado para baixo há muito tempo.
Ribeirão Preto gosta de ser conhecida como a Capital do Agronegócio.
A cidade abriga feiras bilionárias, celebra recordes de exportação e transformou o agronegócio em parte de sua identidade. Crescemos ouvindo que "o agro é pop", que "o agro é tudo", que o campo alimenta o Brasil.
Mas... qual agro?
Porque existe uma enorme diferença entre produzir alimentos e produzir commodities.
Existe uma enorme diferença entre agricultura e monocultura.
Existe uma enorme diferença entre cultivar a terra e explorar a terra.
O problema nunca foi plantar.
O problema é transformar a natureza em ativo financeiro.
Talvez a crise climática seja menos uma crise da natureza e mais uma crise da imaginação.
Perdemos a capacidade de imaginar outras formas de viver.
Outras formas de produzir.
Outras formas de ocupar a cidade.
Outras formas de celebrar.
Outras formas de estar juntos.
É justamente aí que espaços culturais deixam de ser apenas lugares de entretenimento.
Eles se tornam laboratórios.
Porque toda vez que alguém pinta sem precisar vender o quadro, escreve sem buscar viralizar, canta sem disputar audiência ou cria simplesmente porque criar faz sentido, uma pequena rachadura aparece na lógica que transforma tudo em mercadoria.
A arte não diminui a temperatura do planeta.
Mas talvez diminua a temperatura da nossa relação com ele.
Ela nos lembra que nem tudo precisa ser útil.
Nem tudo precisa ser rentável.
Nem tudo precisa produzir.
Algumas coisas precisam apenas existir.
Enquanto tudo ao nosso redor insiste em transformar a vida em mercadoria, a arte continua lembrando que existem coisas cujo valor não pode ser medido em sacas por hectare, toneladas exportadas ou crescimento do PIB.
Uma Sexta Básica não muda o clima.
Um rolê de sábado não impede uma tempestade.
Um texto no blog não derruba o capitalismo.
Mas toda vez que pessoas se encontram para imaginar outros modos de viver, outra relação com a cidade e outra forma de ocupar o mundo, nasce uma pequena desobediência.
É disso que Ribeirão Preto precisa.
Menos orgulho de ser a Capital do Agronegócio.
Mais vergonha do Cerrado que desapareceu.
Menos recordes de exportação.
Mais árvores.
Menos monocultura.
Mais rios vivos.
Menos lucro tratado como destino.
Mais futuro tratado como direito.
Porque nenhuma cidade come PIB.
E nenhuma safra vale um planeta.
Perdeu os rolês?
Fica triste não, esse final de semana tem mais. Confira a nossa agenda abaixo e quase todas as fotos do último rolê.
Confira abaixo as fotos dos últimos rolês.
Para baixar as fotos acesse o blog pelo navegador do celular ou pelo computador, mas não pelo instagram.
Depois, basta clicar nas fotos e com o botão direito salvar, ou no botão abaixo de cada foto.
SEXTA BÁSICA V. 36
BAILE DO CATUABA V.4