Vida sem cor, brilha?

Antes de tudo, uma pergunta.

O que é uma cor?

A física dirá que é luz.

A biologia, uma resposta dos nossos olhos.

A psicologia tentará explicar por que determinadas tonalidades despertam determinadas emoções.

Ainda assim, nenhuma dessas respostas é suficiente para explicar por que um amarelo pode guardar uma infância inteira.

Ou por que existe um azul capaz de entristecer alguém.

As cores nunca foram apenas cores.

São memória.

São linguagem.

São política.

São território.

São afeto.

Durante muito tempo nos ensinaram que a cor servia para decorar.

Como se fosse acessório.

Como se a forma fosse sempre mais importante que a superfície.

Mas basta observar qualquer lugar onde a vida insiste em florescer.

A floresta não é verde.

É uma infinidade de verdes.

O céu jamais permanece azul.

Muda de tom conforme a hora, a estação, a luz.

Nem a pele humana cabe numa caixa de doze lápis de cor.

A vida parece desconfiar da monotonia.

Quem insiste em organizar tudo em categorias somos nós.

Talvez porque a cor desobedeça.

Ela mistura.

Ela atravessa.

Ela contamina.

Uma tinta jamais pergunta a origem da outra antes de produzir uma terceira.

A natureza nunca precisou dessa autorização.

Nós, sim.

Inventamos fronteiras.

Inventamos padrões.

Inventamos o "isso combina" e o "isso não combina".

Como se existir pudesse obedecer a uma cartela Pantone.

Na Maracutaia, a gente prefere desconfiar dessas certezas.

Porque, no fundo, talvez a pergunta nunca tenha sido sobre tinta.

Talvez seja sobre a própria vida.

Quanto dela deixamos desbotar para parecermos adultos?

Quantas cores abandonamos para caber em lugares que jamais foram feitos para nós.

A Maracutaia existe porque acredita numa ideia simples.

O mundo já produz uniformidade demais.

O que falta são espaços onde as pessoas possam experimentar outra vez.

Misturar.

Sujar as mãos.

Inventar.

Porque uma vida sem cor talvez até exista.

Mas dificilmente brilha.

 

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QUINTA DOS INFERNOS V.2 E SEXTA BÁSICA V. 37

 

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