corpo território

Foto 1 do post “corpo território”, Maracutaia Cultural, casa de arte em Ribeirão Preto

A gente gosta muito de dizer que é livre. Até aparecer um corpo livre na nossa frente.

Aí complica.

Um pouco de pele fora do lugar e já começa o tribunal. É vulgar? É sexual? Quer chamar atenção? Pode isso aqui? Mas precisa? E, de repente, um mamilo vira um acontecimento social de proporções muito maiores do que um mamilo provavelmente gostaria de ser.

Talvez a gente simplesmente não saiba lidar com corpos.

Foto 2 do post “corpo território”, Maracutaia Cultural, casa de arte em Ribeirão Preto

Porque corpo também é território. Talvez o primeiro que a gente habita e, curiosamente, um dos primeiros que os outros tentam administrar.


Desde cedo vão desenhando fronteiras nele. Aqui pode. Aqui não pode. Isso você mostra. Isso você esconde. Assim é bonito. Assim é desejável. Assim é homem. Assim é mulher. Assim pode ocupar a rua, a festa, a fotografia, a praia, a noite. Assim é melhor não.

Tem sempre alguém querendo demarcar o terreno.

Foto 3 do post “corpo território”, Maracutaia Cultural, casa de arte em Ribeirão Preto

Talvez por isso a ideia de corpo sem órgãos, de Deleuze e Guattari, interesse tanto. Não tem ninguém planejando abandonar o fígado. A graça está em bagunçar o mapa. Desorganizar as funções, atravessar as fronteiras e desconfiar dessa história de que cada pedaço do corpo já nasceu sabendo o que deve fazer, como deve parecer e até o que deve provocar nos outros.

E não, tirar a roupa (ou parte dela) não transforma ninguém automaticamente em livre. Tem gente completamente pelada e ainda vestida até o pescoço de regra, padrão, vergonha e necessidade de aprovação.

Foto 4 do post “corpo território”, Maracutaia Cultural, casa de arte em Ribeirão Preto

Mas talvez a nudez mais incômoda seja outra: um corpo que resolveu ser território próprio.

Que não está pedindo para ser desejado. Nem aprovado. Nem compreendido.

Só está ali.

Na Maracutaia a gente gosta das coisas quando elas começam a escapar das funções que deram para elas. Piscina que virou Antipalco. Gente que “não é artista” fazendo arte. Paredes que deixam de ser parede para virar exposição. Corpos que podem dançar, criar, se montar, se desmontar, cobrir, descobrir, suar, ocupar.

Poder mostrar a barriga, o peito, a cicatriz, o pelo, a dobra. Poder ser sensual. Poder não ser. Poder estar seminu sem transformar isso automaticamente em convite, disponibilidade ou espetáculo.

Foto 5 do post “corpo território”, Maracutaia Cultural, casa de arte em Ribeirão Preto

Porque um corpo livre não é um território sem fronteiras.

É um território onde quem decide as fronteiras é quem habita.

Por aqui a pergunta nunca foi se as pessoas podem mostrar seus corpos.

Mas se conseguem estar diante de um corpo livre sem achar que tem algum direito sobre ele.

 

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