Krishna, Buda, Jesus ou Alá?

Foto 1 do post “Krishna, Buda, Jesus ou Alá”, Maracutaia Cultural, casa de arte em Ribeirão Preto

O IBGE liberou acesso aos microdados. De forma atrasada, mas liberou.

Como qualquer curioso, fui me embrenhar na análise da população da cidade de Ribeirão Preto, uma cidade cheia de fraseologias, mas que pouco encontrei referenciada em dados. Claro, acredito que isso se deva, em parte, ao fato de eu pesquisar nos lugares errados e não conhecer os pesquisadores da área no município.

Desde já, deixo minhas escusas e, com o maior respeito, pretendo apresentar aqui uma análise dos dados que encontrei.

Em 2022, o Censo registrou 621.091 moradores com mais de 10 anos de idade, analisados em diversos temas, como já se sabe. Mas vamos lá: quem são essas pessoas?

Ao descer a página e acessar a seção “RELIGIÕES — RESULTADOS PRELIMINARES DA AMOSTRA”, encontramos que, entre os entrevistados, 472.032 pertencem a denominações cristãs, sejam católicos apostólicos ou evangélicos em suas diversas interpretações do Evangelho.

Partindo desse dado, considero necessário refletir sobre um ponto: com qual objetivo se faz arte? Quem queremos ter como público?

Digo isso porque o caráter transformador da arte pressupõe que ela seja comunicada à sociedade que se pretende transformar. Então, qual tem sido o nosso ruído de comunicação?

Quando se repete a célebre frase “quero a libertação da classe operária”, de qual operário estamos falando? Se considerarmos os dados, estamos falando de uma população majoritariamente cristã. Entre ela, 142.386 pessoas são evangélicas.

Se uma obra é feita especificamente para um determinado grupo, ela se torna nada mais que uma mercadoria. Talvez falte justamente a subjetividade que apresenta, como disse Picasso, a mentira que nos permite conhecer a verdade.

Mesmo não nutrindo grandes amores pela obra de Picasso, acredito que esse seja um dos objetivos da arte: permitir interpretações, provocar reflexões e, a depender do caminho escolhido, ser alienante ou emancipatória. Cabe ao artista decidir o que pretende fazer com ela.

Pregar para convertidos nada mais é que um tipo de “conservadorismo progressista”. Torna-se necessário, então, sair do discurso batido dos “malditos cristãos” e talvez compreender melhor como se comunicar com esse público, que, gostemos ou não, continua sendo maioria no país.

Essa é uma situação que até mesmo o campo político dito progressista tem enfrentado, como demonstra o crescimento acelerado de discursos conservadores repetidos à exaustão.

A época da ascensão do progressismo nas redes sociais nos deixou confortáveis. Viver em telas e em bolhas virtuais nos faz acreditar que o campo político se comunica de forma adequada. Novamente, falta a subjetividade que nos faz olhar para uma pintura aparentemente simples e, ainda assim, levar-nos a um pensamento mais crítico sobre o status quo.

A crítica é necessária e legítima, mas também exige amadurecimento. O ateísmo adolescente já não encontra mais espaço no discurso político.

Também não existe mais o operário soviético do imaginário do “chão de fábrica”. Em 2025, o Datafolha trouxe um indicador segundo o qual 59% dos brasileiros preferem ter o próprio negócio ou trabalhar de forma autônoma. Entre os jovens de 16 a 24 anos, esse percentual chega a 68%.

O trabalhador mudou. O capitalismo também.

Quem queremos emancipar?

Eu não tenho respostas. Mas perco o sono com a nossa derrota na comunicação.

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Dionísio Guedes

Consumidor de vinhos baratos, fã de botecos e batuqueiro de ocasião.

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