Em Casa: A Ressureição dos Rituais
Ou o que é a Sexta Básica
Quando falamos de Sexta Básica, quase nunca estamos falando de algo realmente básico no sentido de pouco. Mas sim no sentido de mínimo: o mínimo que o trabalhador, o estudante, o vagabundo espera de uma sexta-feira. Queremos, no mínimo, uma boa música; no mínimo, criar, fazer arte, expor o interno na construção material. No mínimo, pessoas respeitosas, humanos que sejam humanos, que sintam, que pensem. No mínimo, se desligar do mundo externo e construir juntos uma casa onde aqueles que a constroem se sintam vivos, e não apenas vivendo.
Há um quê de ritual nisso tudo. E, em tempos de "Morte dos Rituais" — leiam Byung-Chul Han — refletir sobre a perda de ações simbólicas que (des)estruturam o tempo e unem a comunidade é um ato revolucionário. O neoliberalismo preza pelo desempenho, e os rituais acabam sendo substituídos pela comunicação rápida, pelo consumo e, por consequência, pelo isolamento dos indivíduos, causando a ansiedade que conduz à erosão dos laços comunitários.
Criar um mundo interno, uma bolha coletiva imaginária e saudável, para que, de dentro dela, possamos entender que sim, um outro viver é possível. E, a partir disso, discutir entre artistas sem selo como construir esse tal mundo imaginário no dia a dia. É por isso o sentimento constante, quase geral, de quem participa da Sexta Básica: "Me sinto em casa". Esses rituais funcionam como moradia, tornando o mundo um lugar confiável e habitável, papel que o consumismo não cumpre. É o acasamento!
Quando falamos de Sexta Básica, falamos de um ateliê do tempo, onde se reúnem humanos capazes de fazer jorrar o tempo de dentro de si. Isso não é sobre manipular o tempo, congelando-o ou acelerando-o, mas sobre existir com, entre e para além dele. É sobre deixar suas vísceras no chão e caminhar sobre elas, pisando no próprio percurso da criação de uma nova obra. É sobre a utopia de Galeano: dar um passo em direção ao horizonte e vê-lo se afastar um passo e, ainda assim, continuar caminhando.
Quando falamos de Sexta Básica, não falamos necessariamente, não prometemos, não entregamos. Apenas sugerimos, através da territorialidade e da comunidade, que as construções e vivências sejam legítimas, livres, intensas, leves e, sobretudo, reais. Assim como a anti-ideia ou o (des)movimento Maracutaia, de maneira geral: ser de verdade.
Afinal, rituais criam comunidade sem comunicação, justamente o oposto do que vivemos hoje em nossa sociedade: muita comunicação, e pouquíssima (ou quase nada) comunidade.
Por isso, ir, ser, estar, criar em uma Sexta Básica acaba sendo um chute no saco do capitalismo. Não há mercadoria e não somos mercadorias. Somos os hackers desse sistema, que buscam, através da criação, a sustentabilidade não de um projeto de vida, mas de comunidade.
Por isso, apreciem os registros dessa construção, dessas pessoas que têm vida, nomes, ideias, força, arte e liberdade em cada ação. Apreciem Yvis, Marina, Lara, Rennan, Letícia, Camila, Beatriz, Bernardo, Nathalia, Fausto, Priscila, Luci, Pedro, Gabriele, Marte, Fernanda, Loris, Helena, Patrícia e todes que constroem esse ateliê do tempo com presença, estando aqui de verdade.
Perdeu os rolês?
Fica triste não, esse final de semana tem mais. Confira a nossa agenda abaixo e todas as fotos dos últimos rolês.
Sexta- Feira, 08 de Maio, à partir das 20h - Entrada Gratuita
SEXTA- BÁSICA VOL. 25 | Desenho com caneta bico de pena + Lambe-lambe
Sábado, 09 de Maio, à partir das 20h
Rádio Libertadora | Banda Acaso Mansão + DJ Hommegaarden