Surucutaia bate recorde de público entre lágrimas e gozo
Como toda boa suruba, nem todo mundo entrou.
No último sábado, 6/9, conhecido também como dia do sexo, a Maracutaia reuniu em seus aposentos centenas de corpos festejantes das mais diversas idades e ideias, que melhoraram a oferta de deus na SURUCUTAIA. Foram exatos 120min até que o ambiente fosse completamente preenchido por anjos e demônios, grande parte deles vestindo vermelho, que instigados pela energia erótica dos looks demonstraram livremente os seus desejos e exibiram os seus corpos através do ChatCaralha (carinhosamente apelidado durante o rolê).
Enquanto alguns traziam seus velhos amigos - brinquedos eróticos desgastados pelo tempo e pelo uso, além de roupas íntimas e nudes, DJ Xapa adentrava o anti-palco para trazer uma seleta de sons calientes 100% vinil que fez com que os primeiros beijos profundos do rolê começassem a rolar, fosse na longa fila do bar (algo que os organizadores já estão ciente e tratando de melhorar), fosse no cine inferninho, que transmitia ininterruptamente pornôs gay da década de 80 em VHS.
Apesar de uma energia tipo mercúrio retrógrado (tá rolando?) causar diversos contratempos tecnologicos nas TVs, projetores e sons, os colaboradores da Maracutaia sempre muito gentis e belíssimos, fizeram o possível e o impossível para a Surucutaia acontecer da melhor forma possível. Jesus virou satanás, enquanto uma colaboradora exibia um adereço brilhante na cintura, e quando questionada, sorria: "Aqui eu não visto a camisa do rolê, eu visto a calcinha".
Outro adereço semelhante que exaltava o nome do rolê foi flagrado também na piscina, utilizado por uma artista que vestia um look artesanal, inspirado em borboletas: "Eu mesma que criei, esse rolê merecia, né!? Gostou? Vou deixar de presente pra Maracutaia!".
Não sabemos se esses objetos e seus usos faziam parte da obra artística SURUCUTAIA como um todo, ou se eram apetrechos de ousadia individual, fato é que foram notados por muitos e compuseram a estética de maneira livre e de alta beleza visual.
Quando o rolê começava a pegar fogo, chega o Goszador. Um silêncio tomou conta do ambiente, um telão se acendeu e o que alguns apontavam como uma empata foda, era na verdade o puro creme da arte contemporânea descendo a escadaria da Maracutaia diante dos olhos curiosos de todos.
Um ser gigante, com pernas fora da tradicional forma humana - desligadas ao tronco, com uma capa que ostentava sacos de lixo, e uma máscara que se assemelhava ao personagem do filme Predador, percorreu todo o rolê até o fundo da casa. O Goszador portava um casaco com diversas camisinhas que foram presenteadas aos visitantes contendo uma imagem erótica de revistas Gays dos anos 80 e um pirulito.
A performance assinada e interpretada por Lufe - figurinha carimbada dos eventos da Maracutaia, foi um tiro de porra política, social, sexual e visual, o que levou muitos a um gozo intelectual e outros a pensarem: "Pqp, não é possível que não vou transar hoje, só tem arte nessa porra" - Frase ouvida por esse que vos escreve durante a performance e que diferente do que foi escutado, acredita que a arte é o melhor afrodisiaco.
Entre drinks, amassos e apalpadas, Samburá Trio Jazz mergulhou na piscina mais quente da noite para mandar uma sessão instrumental, trazendo um aspecto sessentista para o rolê, no estilo piano bar - estilo esse, elogiado por muitos e criticado por alguns: "Que viagem, jazz não é sensual". Sobre as críticas, fica o questionamento dos motivos: talvez a baixa libído que o capitalismo nos impõe ou até mesmo a habilidade reduzida de se excitar no novo, no desconhecido, no livre. Fato é que casais, trisais e grupos inteiros rodeavam os aposentos da Maracutaia e brincavam como gente grande de forma discreta - muitas vezes até secreta, enquanto o jazz seguia o fluxo do improviso e da melodia erótica.
Após o verdadeiro show jazzistico, finalmente a última atração musical da noite, Ana Mauê, penetrou no anti-palco com tudo dentro, e colocou sem dó a nata do funk putaria pra ver rabas e pirocas se agitando. De mandelão a rave dos fluxo, a cabine de sombras foi tomada por dançarinos e dançarinas secretas que através de suas silhuetas demonstraram muita disposição e habilidade para dança e para transa ao longo do set. O anti-palco mais uma vez foi invadido e dezenas de rabas dançantes agora encontravam suas rabas parceiras e concluíam a celebração entre beijos escorridos e amassos excitantes.
Como anunciado, devido a proibição de fotos e vídeos do evento, não há muitos registros, já que a máquina registradora foi encontrada no final do rolê sem a sua bateria, o que possivelmente impediu o registro através dela do maior rolê da Maracutaia, algo que ficará somente na memória daqueles que viveram (e sobreviveram).
O respeito foi algo muito presente durante todo o encontro. Absolutamente nenhum caso de assédio foi registrado, apenas uma onda erótica, libertária e sadia se manteve planando no ar do começo ao fim.
Infelizmente apenas dois ocorridos deixaram os organizadores um tanto quanto frustrados. Algo que em 6 meses de Maracutaia nunca havia ocorrido: A retirada de peças da casa. Uma delas foi a cabeça da "Santa Cabecinha", obra assinada por Ariel Gricio que estava em exposição na Capela Todo Santo Ajuda. A obra composta de um oratório, um dildo da década de 70, e a cabeça da "La Ursa" - figura conhecida do carnaval de Recife, teve uma parte retirada: A cabeça "La Ursa".
Essa obra criada em 2025 tem um grande valor para o artista, que é também um dos fundadores da Maracutaia. "Se for pra roubar que seja uma grande corporação ou o meu coração, mas a cabeça da Santa Cabecinha é vacilo. Agora é isso, tenho uma obra que é um dildo sem pé nem cabeça" - Lamentou o artista. "Mas tudo bem, quem pegou minha cabecinha, peço carinhosamente que devolva, é só a cabecinha, e ainda convidarei para vir tomar um café ou uma cerveja. Mas se a pessoa não quiser se identificar, tudo bem, é só jogar por cima do portão". Concluiu Ariel.
Além desse item, uma bandeira com a estampa da vigésima primeira carta do Tarot, "O Mundo" que decorava a parte superior da Maracutaia também foi retirada e segue desaparecida e os organizadores ainda esperam a sua devolução ou um pedido de resgate.
Por fim, mas não menos importante, nem todos que se dispuseram a chegar até a Maracutaia conseguiram entrar, já que a casa segue respeitando a sua lotação máxima. Lágrimas escorreram fora e dentro da casa.
Apesar de compreender a decepção daqueles que, infelizmente, ficaram pra fora do maior rolê da Maracutaia, um dos organizadores se manifestou: "Infelizmente estamos sujeitos a isso, é triste, eu também não gostaria de perder esse rolê por nada, por isso alertamos sempre para que cheguem cedo na busca de garantir o acesso a essa experiência única que é a Maracutaia". Questionado sobre a possibilidade de uma próxima edição: "Quer me foder, me beija. Estou cansado e literamente sem cabeça pra isso agora, mas quem sabe...".
Dizem as más línguas que não conseguiram gozar, nem fazer alguém gozar, que apesar da grande lotação, faltou lugar pra sentar. Fatos esses que isentam qualquer desatenção da casa, mas que deixam explicitado que, se houver outra Surucutaia, todos já sabem como proceder — casa e público.
Afinal, como diz Alice Ruiz: "Quem ri quando goza/ é poesia/ até quando é prosa".
A arte é uma arma carregada de futuro.
Isso é arte, e arte é trabalho.
Repete comigo: ARTE!